sexta-feira, 10 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Café com saudade
Eu te devia isso. E, nesta manhã, tomando o bom e velho café, a saudade bateu. E bateu muito forte. Lembrei do nascimento de uma amizade. Poucas amizades nascem, crescem e florescem. Normalmente, as pessoas surgem prontas, embrulhadas para presente. Mas com você foi diferente. Fomos quebrando os espinhos aos poucos. Começou naquela aventura infantil e maravilhosa chamada Floripa. Foi lá que você aprendeu a me respeitar. Rio Preto, apezinho do Higienópolis: a amizade se fortaleceu entre nossos “cafés filosóficos”. Por isso, nesta manhã, a saudade veio muito forte. Finalmente, em São Paulo, veio a Consolação. Eu não sei o que seria de mim, sem você, naquela selva. Não importam os seus motivos, foi tudo muito intenso e caótico pra todos, eu sei, mas era você que estava alí comigo, rindo das minhas palhaçadas, me botando pra cima quando o mundo inteiro dizia que eu não era nada. Era você que estava ali comigo, e é só isso que importa. Por que as verdadeiras amizades não surgem do nada, embrulhadas para presente. As pessoas são rosas. Tem que saber onde tocar, como segurar. Se não, é sangue e saudade.
Ariel Pádua
.
Dedicado à Mariana Menezes.
Ariel Pádua
.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Gato Escaldado
O relógio do computador marcava quatro da tarde, quando Lucas decidiu pedir demissão. Era um bom funcionário e ganhava bem. Mas já era tempo de voar. Dona Iolanda não se conformava: a distância, os perigos, os motivos. Nada fazia sentido. Seu passarinho ia voar sozinho. Pra longe dela e pra mais perto de si mesmo. Lucas escolheu Goiânia, a cidade não importava, só queria sair dalí e viver uma outra vida. Iolanda chorava culpada. Equivocada. As pessoas são assim, Iolanda, nunca estão satisfeitas. O dinheiro acabou e Lucas voltou. Quebrado, escaldado, mas cheio de estórias pra contar. Abandonou de vez a Terapia e foi fazer Yoga. Lucas já não cabia na carinhosa gaiola de Iolanda. Foi morar com um pessoal aí, outros Lucas, iguais a ele. Até que encontrou uma passarinha e foram bater asas pra outras bandas. Dessa vez, Brasília, foi idéia de Lucas. Voltaram, dois anos depois, pra cuidar da Dona Iolanda. Lucas era jovem, vinte e sete, mas tinha cem anos no olhar. Era fiel à liberdade e ao seu grande amor: Iolanda.
Ariel Pádua
.
Ariel Pádua
.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Quinta A
Joana abusava dos decotes. Sentava na primeira carteira para sentir-se a primeira. Em casa, era a irmã do meio. Mas na classe era a primeira. Logo atrás dela, sentava um gorducho com cheiro de remédio. Todo mundo queria ser a Joana, sentar na frente, apagar a lousa, a bela letra, os decotes... Só Joana não queria ser Joana. Joana queria ser homem, mijar em pé, jogar bola, andar de skate com o irmão mais velho e jogar Atari com o mais novo. Mas a casa nunca foi dela. Joana só era Joana no colo do pai e na beira da pia. Por isso, ia orgulhosa pra escola, onde reinava. E, naquele ano da Quinta A, mesmo sem saber, todos, sem exceção, queriam ser a Joana: o rebelde mimado das calças rasgadas, o pretinho repetente, o gorducho com cheiro de remédio, a garota de óculos da boca roxa, o menino afeminado que sempre sentava perto da porta. Todas e todos.
Ariel Pádua
.
Ariel Pádua
.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Bicicleta Quebrada

Assisto de camarote à futilidade trágica da vida e aos fogos-de-artifícios. Cumpro meus deveres sociais e vivo meu tédio com a dignidade que me foi apresentada. Eu sei, não passar assim tão rápido. Não é só apertão um botão. Foi um furacão. Melhor sair da cidade, esquecer a minha idade e ficar sem bicicleta. A solidão tem o seu preço e o seu prazer possível. Não quero atingir o Nirvana e dar um tiro na cabeça. Prefiro a vida comum e feliz da Julia Roberts. Fale baixo, os vizinhos podem escutar. Vai passar, eu sei, e eu poderia enfeitar este texto com palavras cheias de esperança. Mas não seria honesto hoje. Nada de horizontes e distrações. Só uma parede branca, descascada.
Ariel
-
"A minha pergunta será portanto tão simples como as minhas análises: há limites para a indignação?" - José Saramago
http://caderno.josesaramago.org/2009/07/06/critica
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Jezebel
Jezebel não era mulher de deixar nada por menos. Carregava nas costas séculos de escravidão. Por isso queria sempre mais. Sabia que se não fosse a melhor, não seria nada, absolutamente nada. É que Jezebel era de família pobre e ignorante, gente sem berço, cá entre nós. Jezebel não tinha mesmo pra quem puxar e não puxava o saco de ninguém. “Eufemista, pai, eu sou eufemista, uma mulher pra frente, sabe?”, dizia sempre. Jezebel era uma mulher apaixonada, cheia de vontades. Deixou Recife com quinze anos e foi pra São Paulo ser “artista”, assim dizia seu pai aos amigos mais chegados. E, ao chegar na Terra da Garoa, a garota virou mulher de vida difícil. Até que um dia juntou um bom dinheiro e montou o seu próprio negócio: uma loja de produtos religiosos e esotéricos (macumba, cá entre nós), “essas coisas do Demo”, diria seu pai, que era crente, se fosse há vinte anos atrás. Mas o dinheiro perdoa tudo e seu pai, nos últimos dias da vida, ainda se vangloriava de ter uma filha “microempresária”.
Ariel Pádua
.
Ariel Pádua
.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)

Linda.