sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Intuição Masculina

Foto: André Lucato (Londres)



A solidão era a única verdade daquela família de petistas funcionários do Banespa em 87. A psicologia estava super em alta, o capitalismo bombando e a Xuxa miando contra o baixo astral na televisão. As crianças eram monstrinhos consumistas. Perfeitas na sua maldade sincera. Os pais brigavam na sala como se Bruno e Rafael não existissem. Crianças crescidas sem graça – pensou Rafael. Bruno sabia jogar bola, fazer pipa, essas coisas de menino. Rafael não sabia fazer nada. Só pensar. Gostava de ficar no meio dos adultos ouvindo fragmentos de fofocas. Marcelo e Joana, gato e cachorro, Bruno e Rafa. Reuniões do PT, festas sem fim. Frio. Mãe errada no supermercado. Solidão – a mesma de ontem, hoje e amanhã. O choro. O chão. O céu. A pipa do Bruninho subindo, sumindo no céu entre nuvens e pássaros pensativos. Rafael tinha intuição masculina e previu tudo. Só ficou ele. Os outros foram morar nas nuvens. Seu tio Antonio contou todos os detalhes horríveis que ele só foi entender e sentir alguns anos depois.


Ariel Pádua



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

zoológico

Ilustração: Daniel Araújo


lá pelas tantas da madrugada quando a cidade média dorme intranquila e a chuva esfria a periferia a zona sul chora seu sonho azul como um rato atrás do queijo isadora não vê a hora de mudar para brasília faz as malas e faz de conta que é feliz porque tudo vai mudar num ritual frenético e obsessivo sai sem norte carregando sacolas do carrefour calcinhas e meias entradas para cinema ela só quer voar se cansou de pisar em ovos e fingir tudo em brasília todo mundo vai achar que eu sou rica e tenho muitos amigos por isso isadora chora por dentro porque é muito branca e depois de se formar em farmácia na pior faculdade ficou pra sempre desempregada porque todo mundo me conhece em brasília posso fazer qualquer coisa até trabalhar em shopping faz de conta que sou uma girafa lógico e todo mundo veio aqui pra me ver

ariel



estava cansada do esforço de animal libertado.

clarice

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Bananas de Pijamas


O Império da Mediocridade começou com a Revolução Burguesa da Terra do Nunca. Todo mundo sabe disso na Área 51, mesmo não tendo uma Boa Idéia do que seja o Brazil, desconfiam que são um povo alegre cheio de penas. Estão certos. O Brasil está na moda. Mas esse filme é velho: Carmem Miranda, Zé Carioca... Será que o “Mickey Mouse Obama” conhece o Jorge Amado, a Clarice, a Elis...? Deus abençoe a América (do Sul). Todos precisam de Heróis. Aos 13, sozinho no meu quarto, ouvia mil vezes, até gastar, o disco ‘As Quatro Estações’ do Legião ‘Renato Russo’ Urbana. Agora, que o-Brasil-está-na-moda-e-daí, o mundo descobriu o que eu já sabia desde os 7 sobre o Caetano – graças a minha família –, que ele é, e sempre será, o Super Bacana. As pessoas mais legais são como ele: orgulhosas, eloquentes, mas sabem dar uma sumidinha básica e pedir desculpas na hora certa. Depois, voltam com Tudo o que tem e não tem pra dar como a Madonna e o Johnny Depp. De verdade, ninguém sabe nada. Elegem filósofos, ídolos, ícones, santos, deuses, reis, anjos, grifes, gurus... Substitutos das Fadas que nos botaram no mundo, no colo, no berço, na cama, na escola, na rua. Ninguém sabe nada. As Mães desconfiam.

Ariel Pádua

terça-feira, 1 de setembro de 2009

por exemplo


, curvada, foi tateando até encontrar o enxaguante bucal debaixo da pia – manter o hálito fresco custa –, desgostosa, lembrou do dentista entre o banheiro e o quarto – dois passos – sofistas, surfistas, e, masturbou-se como todos os dias, mas, sem êxito, não gozou – gozado, desatada, desatou a chorar e a rir e a cantar e sem titubear chamou a polícia – único número que sabia –, abriu a geladeira da prima mais rica, da cidade mais feia do mundo, foi nesse dia que passou a gostar de doce de figo, foi assim, pegou a faca mais afiada que tinha e cortou o figo ao meio, minto, foi dois dias depois de dormir para sempre e acordar só em qualquer sofá – finjo tudo – disse clara, curvada – quando suas frases e seus sedativos não faziam mais efeito


ariel

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Atrizes

Rodrigo Rosa


As flores são das mulheres. Flores espinhosas como Dona Rosa que gosta de sofrer em voz alta. Flores e filhos, só delas. Segundo a Bíblia, a Mulher é a tentação, o pecado, ou seja, o Diabo. Dona Rosa veste Prada, outras nada. Certas Orquídeas compram na Daslu, enquanto as Margaridas vestem Daspu. Todas são atrizes: dramáticas, verborrágicas, intensas, superficiais – dominadoras controladas pela Lua e pelos Hormônios – escravas, negras e brancas, da beleza. Mas podem ser mães e usar uma flor no cabelo. No resto, ainda perdem em Direitos e Dinheiro, mas quanto custa uma flor no cabelo? Deveriam reclamar com o Papa, porém, parecem apreciar esse círculo vicioso – mandam seus filhos mais “sensíveis” para o Seminário, para o Exército ou para o Psiquiatra –, perpetuando o machismo-homossexual-camuflado da sociedade. Nascidos de quadros assim, somos personagens sonhados no sonho de um Deus singular, e contaminados pelo Tédio – constante – aguardamos um remédio que venha da NASA ou de Cuba e troque o Não pelo Sim – dando algum sentido as coisas.

Ariel Pádua


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Pedro e o Paraíso


Entusiasmado, com brilho nos olhos, Pedro Gabriel entrou na sala do chefe da Indústria Sucroalcooleira, e, bastante exaltado (e exausto), finalmente, pediu demissão. Aquilo era muito pouco pra ele. Não foi pra isso que estudou Agronomia e leu todos os livros do Herman Hesse. Para se tornar um neo-capitão-do-mato da Nova Escravidão Branca Nordestina Alcoolizada? Não. Pedro não queria mais aquela vida de gravatinhas, cafezinhos, piadinhas machistas, comentários idiotas sobre esportes, campeonato de panças, Juliana Paes... Pedro queria paz! Aquela realidade, muito próxima, fazia sentir-se culpado. Era uma culpa diferente de comer um bife ou fumar um baseado. Era uma realidade próxima demais, nua, crua e mal passada. Pedro viu amigos de infância, da pequena cidade de Monte Aprazível, morrerem por causa daquela merda toda. E viu gente humilde, de sotaque engraçado, passando fome, cheios de filhos, e outras coisas de embrulhar o estômago. Por isso, no dia 2 de março de 2009, Pedro Gabriel disse o Não mais saboroso da sua vida. Recebeu um bom acerto da empresa e mudou-se para a Suíça – onde tudo é perfeito, tudo funciona, ninguém passa fome, as mulheres e os homens são lindos e os restaurantes são ótimos. É isso que importa! A origem do dinheiro era incerta e distante. Um paraíso fiscal, é verdade. Mesmo assim, um verdadeiro Paraíso.

Ariel Pádua

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Piloto Automático

André Lucato


O hábito não faz o monge, mas faz, sem dúvida, o tédio, o vazio, e me faz escrever por escrever no piloto automático, firulas e pérolas e recortes sem alma. Qualquer coisa que me leva do nada a lugar nenhum. Há tantas maneiras de não dizer nada. Escolho aqui a mais adequada. Quando se está apaixonado, tudo parece fazer sentido. Mas o amor é mal educado. Chega e vai, sem pedir licença, sem dizer obrigado. Num mundo onde tudo é calculado, o amor é espontâneo, porém, caótico, imprevisível. Não me venham com frases feitas, hoje não. Já bastam as minhas! Não se trata de sofrer por antecipação. É que só a paixão legitima o ridículo de acordar todos os dias no mesmo horário e fazer as mesmas coisas e rir das mesmas piadas prontas. Só a paixão justifica viver num mundo sem pontos, nem vírgulas, deselegante, onde já não é possível distinguir com tanta clareza entre porcos e homens – de boca fechada são quase iguais –, e os espíritos mais nobres encontram-se cansados. Frases feitas? Hoje não. O que não mata, deixa sequelas e enfraquece o coração.

Ariel Pádua

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