terça-feira, 15 de setembro de 2009

quase

Ilustração: Daniel Araújo



sorriu um sorriso amarelo quase contido quase consigo piscar os olhos tensos suas mãos atadas nos bolsos da calça desbotada pele

desabotoada por um impulso quase otimista de quem compra convites antecipados pincela verdades enlatadas vacas atoladas até o pescoço horroroso da vera fisher só ficou o nome

a agressividade dos ressentidos com o tempo leva os teletubbies ou terei de ser mais redondo e estupidamente gelado e óbvio como flores sem sair do lugar

afirmando incertezas com toda clareza e sofisticação quase coerente quase natural quase original

ariel

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Orgânico


Metódico & farto de si & cheio de dúvidas & dívidas & sonhos óbvios & frases feitas & gestos comuns & pensamentos circulares – obsessivos (liberdade fechada em si mesma) – era assim que era Eu agora como todo mais-um da face da Terra!, Tenho sorte? Que Eu é mais forte? O Eu linguístico, editado, virtual – ou – o Eu carne-osso, de movimentos desajeitados, humanos? Tem um Deus em cada Eu? Ou tem um Eu em cada Deus Ególatra? Ou dá na mesma? Ou não dá em Nada? Corra!, os Andróides estão entre nós, disfarçados de surfistas de Cristo, vendedores da Avon, representantes da HerbaLife, funcionários sorridentes do Pão de Açúcar, Silvios Santos, Hebes Camargos, Robertos Injustus, Lulas, Serras, Mariahs Careys... Mas Eu não! Eu sou orgânico, espontâneo, lúdico, puro, sutil, viril, modesto e belo. O Andróide é Você.

Ariel

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cartão Postal


Neste dia, João não foi trabalhar, não beijou a sua mulher, não consertou a privada, não bateu no filho mais novo, não sacaneou o vizinho do outro time, não comeu canjica. Orgulhoso, pagou o fiado no bar, esperou o trem e fumou feliz. Achava que sabia o que estava fazendo. Precisava ter certeza. Então teve. Cansou da pessoa que o mundo deixou ele ser. Leila esperava flores do outro lado da maior cidade do Brasil. João, ansioso, da Silva apagou o cigarro e entrou no trem. Viu o mundo passar parado pela janela, feliz, e fim.

Ariel Pádua

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Intuição Masculina

Foto: André Lucato (Londres)



A solidão era a única verdade daquela família de petistas funcionários do Banespa em 87. A psicologia estava super em alta, o capitalismo bombando e a Xuxa miando contra o baixo astral na televisão. As crianças eram monstrinhos consumistas. Perfeitas na sua maldade sincera. Os pais brigavam na sala como se Bruno e Rafael não existissem. Crianças crescidas sem graça – pensou Rafael. Bruno sabia jogar bola, fazer pipa, essas coisas de menino. Rafael não sabia fazer nada. Só pensar. Gostava de ficar no meio dos adultos ouvindo fragmentos de fofocas. Marcelo e Joana, gato e cachorro, Bruno e Rafa. Reuniões do PT, festas sem fim. Frio. Mãe errada no supermercado. Solidão – a mesma de ontem, hoje e amanhã. O choro. O chão. O céu. A pipa do Bruninho subindo, sumindo no céu entre nuvens e pássaros pensativos. Rafael tinha intuição masculina e previu tudo. Só ficou ele. Os outros foram morar nas nuvens. Seu tio Antonio contou todos os detalhes horríveis que ele só foi entender e sentir alguns anos depois.


Ariel Pádua



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

zoológico

Ilustração: Daniel Araújo


lá pelas tantas da madrugada quando a cidade média dorme intranquila e a chuva esfria a periferia a zona sul chora seu sonho azul como um rato atrás do queijo isadora não vê a hora de mudar para brasília faz as malas e faz de conta que é feliz porque tudo vai mudar num ritual frenético e obsessivo sai sem norte carregando sacolas do carrefour calcinhas e meias entradas para cinema ela só quer voar se cansou de pisar em ovos e fingir tudo em brasília todo mundo vai achar que eu sou rica e tenho muitos amigos por isso isadora chora por dentro porque é muito branca e depois de se formar em farmácia na pior faculdade ficou pra sempre desempregada porque todo mundo me conhece em brasília posso fazer qualquer coisa até trabalhar em shopping faz de conta que sou uma girafa lógico e todo mundo veio aqui pra me ver

ariel



estava cansada do esforço de animal libertado.

clarice

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Bananas de Pijamas


O Império da Mediocridade começou com a Revolução Burguesa da Terra do Nunca. Todo mundo sabe disso na Área 51, mesmo não tendo uma Boa Idéia do que seja o Brazil, desconfiam que são um povo alegre cheio de penas. Estão certos. O Brasil está na moda. Mas esse filme é velho: Carmem Miranda, Zé Carioca... Será que o “Mickey Mouse Obama” conhece o Jorge Amado, a Clarice, a Elis...? Deus abençoe a América (do Sul). Todos precisam de Heróis. Aos 13, sozinho no meu quarto, ouvia mil vezes, até gastar, o disco ‘As Quatro Estações’ do Legião ‘Renato Russo’ Urbana. Agora, que o-Brasil-está-na-moda-e-daí, o mundo descobriu o que eu já sabia desde os 7 sobre o Caetano – graças a minha família –, que ele é, e sempre será, o Super Bacana. As pessoas mais legais são como ele: orgulhosas, eloquentes, mas sabem dar uma sumidinha básica e pedir desculpas na hora certa. Depois, voltam com Tudo o que tem e não tem pra dar como a Madonna e o Johnny Depp. De verdade, ninguém sabe nada. Elegem filósofos, ídolos, ícones, santos, deuses, reis, anjos, grifes, gurus... Substitutos das Fadas que nos botaram no mundo, no colo, no berço, na cama, na escola, na rua. Ninguém sabe nada. As Mães desconfiam.

Ariel Pádua

terça-feira, 1 de setembro de 2009

por exemplo


, curvada, foi tateando até encontrar o enxaguante bucal debaixo da pia – manter o hálito fresco custa –, desgostosa, lembrou do dentista entre o banheiro e o quarto – dois passos – sofistas, surfistas, e, masturbou-se como todos os dias, mas, sem êxito, não gozou – gozado, desatada, desatou a chorar e a rir e a cantar e sem titubear chamou a polícia – único número que sabia –, abriu a geladeira da prima mais rica, da cidade mais feia do mundo, foi nesse dia que passou a gostar de doce de figo, foi assim, pegou a faca mais afiada que tinha e cortou o figo ao meio, minto, foi dois dias depois de dormir para sempre e acordar só em qualquer sofá – finjo tudo – disse clara, curvada – quando suas frases e seus sedativos não faziam mais efeito


ariel