sábado, 26 de setembro de 2009

Luana

Lucas - Estúdio Desenhativo


Goteiras, charmosas goteiras e bacias pela casa. Paredes descascadas e um inseto que voa em direção à luz. Velas, caravelas, caramelos. Manhã fresca. Tim Maia na agulha. Chorar lendo cartas velhas. Chorar. Chuveiro elétrico e a sensação de limpeza por fora e por dentro. Desacelerado dia. Passado visível. Escrever um poeminha pra ninguém. À vaca de saltos? Mais um fado enfadonho para aguardar fatos. Boatos. Tão chatos como amarrar cadarços e derramar pasta de dentes no uniforme da escola.


Ariel

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

História com H

Esta história não é uma história porque não é linear, não é dividida em três Atos e, semanticamente, não é história nem estória. Não tem rosa nem romance. Não pertence a mim. Não pertence aos homens, menos ainda às mulheres que são um subproduto da Civilização, contudo, são o centro, o óbvio, o útero, a matriz. Mesmo assim, por alguma razão que Freud complicou, Kafka confundiu e Clarice bem que tentou clarear, Elas estão, de modo geral, fora dos livros, à margem da “história” e agora uso aspas para deixar nítido que a história não é a história, e, a mulher representa esse processo do mundo, da lua, de gerar vida e aconchego no mundo da caça e do caçador. E, agora, a civilização com suas novas tecnologias e facilidades, resultado da “história dos homens” deixou a mulher novamente à margem, mas dessa vez sem função. Se antes a mulher era a 'rainha do lar', agora não é rainha nem da 'cocada preta', escrava, costela. E o poder ainda nas mãos dos “homens”: agora versões andróginas, mulheres com pênis, poder e pavio curto. Mamilos, só de enfeite. Belos, egocêntricos, dominadores (como muitas mulheres-mulheres, é verdade), mas os homens-mulheres são todos os homens, de todas as épocas. Fenomenais jogadores de futebol, eleitos por comentaristas de TV, que nas horas vagas divertem-se com outros homens-mulheres (ou mulheres-homens). E a conclusão disso tudo é que estórias mal contadas, se muito contadas tornam-se verdades universais: perfeitas. Mas na verdade tudo não passa de ilusão de ótica. Pura ilusão de ótica se o que nos separam são apenas pequenos acessórios biológicos e roupas. Roupas. Adoro jiló. A vírgula é minha, boto onde eu quero. O homem-homem é um produto da guerra, da força física (hoje, mantida nas academias de musculação). A tecnologia torna todos os seres equivalentes e igualmente desimportantes para o curso da história. Com ou sem h.


ARIEL

10 Filmes Geniais



1 – Cría Cuervos – Carlos Saura

2 – E o Vento Levou – Victor Fleming

3 – Amarcord – Federico Fellini

4 – Laranja Mecânica – Stanley Kubrick

5 – Barton Fink – Joel Coen

6 – Psicose – Alfred Hitchcock

7 – Cidade de Deus – Fernando Meirelles

8 – Fama – Alan Parker

9 – Café da Manhã em Plutão – Neil Jordan

10 – Edward Mãos de Tesoura – Tim Burton


Ariel

terça-feira, 22 de setembro de 2009

DEZ LIVROS ESSENCIAIS

1 – A Hora da Estrela – Clarice Lispector

2 – Teorema – Pier Paolo Pasolini

3 – Capitães da Areia – Jorge Amado

4 – Demian – Herman Hesse

5 – Simulacros e Simulação – Jean Baudrillard

6 – Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu

7 – A Alma do Homem Sob o Socialismo – Oscar Wilde

8 – A Revolução dos Bichos – George Orwell

9 – Genealogia da Moral – Friedrich Nietzsche

10 – Fragmentos de Um Discurso Amoroso – Roland Barthes


ARIEL

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

MAROLA


Beto tinha três filhas: Lúcia, Sofia e Júlia. Apesar de não saber muito como lidar com as mulheres, e ter sido recentemente trocado por um argentino por sua esposa Clara, Beto tinha algo de mágico que magnetizava suas filhas em torno de sua personalidade leve e encantadora. Perdeu uma mulher, mas tinha três muito fiéis. E todos os seus planos eram questionados e analisados por elas. Mas sempre apoiados em suas versões finais, revisadas e editadas com carinho por Lúcia, Sofia e Júlia. Um time infalível. E foi assim sempre. Até mesmo quando Beto teve alguns relacionamentos passageiros com outros homens. Júlia era entusiasmada com tudo, não via problemas em nada. Sofia era doce e cautelosa. Lúcia era tímida, introspectiva e brilhante nas horas certas. Todas tinham algo em comum: a devoção total ao pai. Essa harmonia nunca se quebrou. A natureza tem dessas coisas indestrutíveis como os diamantes e as baratas. Os quatro tinham uma ligação natural que não era abalada por marolas da vida. Tinham muita sorte também, luz, chame como quiser – essas coisas inexplicáveis. As filhas cresceram. Sofia e Júlia tornaram-se grandes mães como boas ítalo-brasileiras. Lúcia preferiu desbravar um pouco o mundo. Fotógrafa e filósofa, mantinha a família informada de tudo através de cartões postais, e-mails, orkut... Era mais compreensiva com a mãe Clara, claro, Lúcia era meio cigana também, por isso entendia melhor a mãe. E foi justamente Lúcia que ajudou na reconciliação quando Clara, decepcionada com o argentino canalha, quis voltar com Beto – o homem perfeito: na cama, na cozinha, na conta bancária. Clara era instável e egoísta (quem não é?), mas era amável, inteligente e linda demais para Beto dizer não. Beto disse sim. Lúcia acompanhava tudo de longe, brincava de Deus, feliz como nunca.

ARIEL

sábado, 19 de setembro de 2009

Medo

Arte: Daniel Araújo



Circular e gravitacional – feito uma peça num quebra-cabeças impossível e radiante –, busco raízes esquecidas, referências mortas-vivas sem lugar real, pois já não há nada além da sedução. De tempos em tempos, somos atingidos por uma histeria histórica sem sentido, ventilando como borboletas alucinadas que em dado momento param de bater as asas por motivos térmicos ou esotéricos. E aí só fica o resíduo. O mel. Doce e grudento feito uma música eterna, tocando sem cessar. Na ordem do dia dos simulacros, tudo isso passa batido. Bato uma. Bato duas vezes na porta que não abre. Bato palmas, só, na platéia de qualquer Medeia. Soníferos sonoros, sorrisos holográficos. Sem sombra de dúvida, sei quem sou. Mesmo que meu passado tenha sido simulado pela máquina de moer sonhos e meu futuro seja incerto como todos os futuros abrigos. Queridas abóboras, ezis-tu!


ARIEL

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Céu Laranja


Como carne. Vermelha, branca ou lilás. Qualquer uma!, menos moela: é que odeio miúdos, miudezas, picuinhas. Meu espírito é épico, mas meu corpo é lírico e limitado. Ninguém perguntou nada, mas eu vou falar. Agora todo mundo pode falar um pouco sobre nada. Confesso que abandono livros e pessoas pela metade e jogo fora o miolo do pão – faço uma bolinha e arremesso!, livros e pessoas pela metade. Confesso que procuro uma Nova Metade: maior que a Primeira e menos cítrica – do tamanho do Céu Laranja confortável e casual com cheiro de erva-doce.

Ariel Pádua


"Todo o real é residual, e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal."
Jean Baudrillard

"Você é a mesma de sempre. Só que desabrochou em rosa vermelho-sangue."
Clarice Lispector