domingo, 24 de janeiro de 2010

Do Orgulho ao Amor ou da Razão à Fé

Daniel Araújo


O ser humano viciou-se no verbo alterar. O ser humano viciou-se em alterar suas percepções do mundo. É por isso que metade do mundo é viciada em drogas e a outra metade é viciada na religião. É por isso que todos, sem exceção, são viciados em jogar. Jogar é seduzir. Jogar é trapacear. Sorte no jogo, sorte no amor. A realidade, vírgula, parece ao homem (ou a mulher!), real demais pra ser verdade, ou, verdadeira demais pra ser real. Falar é emitir sons com (ou sem) sentido que são imediatamente decodificados por outra pessoa. Pessoa apenas no sentido literal. Que fique claro! Como se pessoas pudessem caber em meia dúzia de frases viciosas, viciantes como no jogo, ou seja, o vício no perde e ganha que traz o caos para o homem (ou a mulher!). Há leis no mundo que não podem ser alteradas. Há regras universais. É por isso que nascemos e, é por isso que morremos. Como pássaros presos em uma gaiola, podemos escolher: receber a luz ou ficar no cantinho, nas sombras. A luz é o livre arbítrio. A única solução para o vazio da razão no sentido de fé no nada. O livre arbítrio é sinônimo de liberdade de pensar. Liberdade de se deixar ser julgado, sempre, é claro, com um sorriso no rosto daqueles quem vem do coração.

Ariel Pádua

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

eu-e-você


cada palavra tinha pra ela um sentido sexualmente execrável como noites mal dormidas e cervejas estragando fora da geladeira sem falar no tédio chuvoso e da preguiça de fazer macarrão ouvindo qualquer coisa que parece música mas não parece novidade só o vento fresco sempre igual e sempre novo na janela de teresa dava pra ver sua lista de contatos no modo invisível covardes escondidos de si mesmos quem sabe a gente pega um cineminha mais tarde a gente vai pra casa a gente eu-e-você a gente dá um rolê ou espera acontecer de uma carta entrar por baixo da porta talvez mais propaganda pentecostal ou um rombo na conta do novo rambo do cinema nacional que é branco e mata bandidos da mesma favela onde mora depois de cheirar um certo pó de arroz percebe uma linha de expressão e um certo ar de sabichão que não sabe nada além do óbvio destino de todas as teresas tesudas ou não


Ariel

sábado, 2 de janeiro de 2010

Passou



Seu namoro durou menos que a fama da Lady Gaga e suas frases curtas do Twitter já não tinham mais graça e todos os seus cedês do Oasis não valiam mais nada no Mercado Livre quando a Som Livre já tinha falido foi então que percebeu a eletrostática imagem do seu rosto vencido no espelho mágico dos vampiros falidos do Morumbi daí exibiu um olhar excludente como o sorriso do Serra.

Ariel

domingo, 20 de dezembro de 2009

Cota Diária

Foto de Fabiana Santinelli


José Geraldo era um maluco que dava lucro. Nesse mundo de desassossego e de sinuosos apelos, ele consumia seu próprio veneno feito de dor e alegria em pó misturado com água viva da chuva fria de uma manhã remota em São José dos Campos. Lembrava com precisão do tom dos pelos do seu primeiro cachorro roubado, mas não se lembrava direito do rosto do seu pai sempre atrás do jornal segundas intenções e na página três um pouco de emoção policial do tipo "o que fizemos com os nossos filhos". Não ensinamos o principal: querer nada, ser só si, ver e voar como o vento batendo na porta de Deus. José Geraldo mantinha suas tolas idolatrias, desejos vulgares e um orgulho ressentido requentando todas as tardes. É claro que isso não era pra ele algo solene, talvez ritualístico, mania mesmo, para se proteger de sua própria liberdade animal. Quando dizia o que pensava gastando sua cota diária de maldade sentia-se cansado e tentado a sair buzinando suas qualidades feito um grande idiota. Talvez isso verdadeiramente se desse. Moderno, Zé Geraldo desceu a rua não imaginando nada, apenas sentindo uma profunda paz que nasce da lama, que vem do orgulho, a paz que só os mais sujos e os mais nobres podem sentir. Sentiu sem entender. Sorriu e estralou os dedos do pé.

Ariel

domingo, 8 de novembro de 2009

Figurante

Foto e tratamento gráfico: Fabiana Santinelli



Acordou de um sonho sinistro e suado levantou-se e foi à geladeira. Branca e descascada geladeira, lâmpada dentro, queimada. Acendeu a luz da cozinha. Olhos ofuscados. Atordoado ator, meio acordado, meio vivo. A lata de pêssegos não tinha pêssegos. Bebeu todo o conservante líquido doce veneno, compulsivamente como se fosse licor. Insônia e calor. A gaveta, os comprimidos, boa noite. De manhã, acordou. Som de buzina, carros, cachorros, galos e gente. E o medo do dia pareceu-lhe maior que o medo da noite. A gaveta, os comprimidos, bom dia. Paulo, o personagem pretexto, pensou: "a Arte se levada a sério demais vira Política já que a Cultura Pop é a única coisa mais poderosa que a Religião no imaginário coletivo já que metade do mundo, ou talvez mais, certamente mais, não é cristão, já que todo o mundo assiste TV, vai aos cinemas e aos estádios. Portanto, os ícones pop são tão fortes como modelos acabados de comportamento quanto os modelos políticos e religiosos (há diferença?), mas pega mal dizer isso, pois o Império Romano (o maior que já houve) travestido de Vaticano ainda exerce poder na mídia global." Café preto, um pedaço de pão, um nó na gravata, o nó na garganta, um dó de si mesmo. Lá fora, a vida segue seca. Os carros voam. Os dias passam batidos. Os sonhos morrem. A vida vive. A vizinha lava a rua e fala mal do Prefeito. É logo repreendida pela colega do bairro e da Igreja muito preocupada com o planeta.


Ariel

terça-feira, 13 de outubro de 2009

MARINA

Daniel Araújo




Enquanto os olhos da cidade repousam sobre cada cota de sangue do velho travesti jogado na rua molhado molhada como uma Tele Sena perdida jogada jogado no lixo sangue e chuva escorrendo na janela como lágrimas, Marina parecia uma louca um louco delineador desenhando um rosto perfeito feito uma gata no cio sem frio, decotada pelas ruas algemadas como se cada vírgula fosse um poema como se cada gota da gata fosse um acessório dispensável como vírgulas e pontos elegantes disfarçando um texto vazio – as grandes esmeraldas – então tudo continua a não fazer nenhum sentido, no entanto brilham as esmeraldas e os dentes separados no ninho – olhos oásis, noites do norte (juro que vou pra Salvador este ou ano que vem depois de Buenos Aires). Marina, o nome mais lindo, vive delineando situações inverossímeis e a cada talvez (dentro dela) nasce um sim e morre um não. A cada não nascem cem (possíveis) sins. Marina se molha de água do mar. Fecha os olhos e sorri morna e lisa.


ARIEL

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cena Aberta

Foto de Ariel Pádua

Entre tantos antecedentes impertinentes (fatos fúteis), refutados logo de cara com a ferida aberta em cena: sonhos de Ovomaltine, garrafas, Pet Shop Boys na vitrola. Numa das gaiolas, um hamster tenso – penso nas férias na praia. Preciso nadar, correr e lembrar. Correr e lembrar.


Ariel