sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Mundo Pensante
Tinha rosto de criança crescida. Meio enjoado da vida. Novo por fora, velho por dentro. Sorriso amarelo, pele muito branca. Mãos macias de quem nunca trabalhou. Desconfiou do seu travesseiro e não conseguiu dormir. Alguém lhe disse numa festa que ele era per-fei-to! Disse três vezes. “Você é perfeito”. Nem sua mãe lhe disse aquilo. Podia ver as palavras se formando no ar. “Você é perfeito”. Não importava se eram verdadeiras. Foram ditas. Deus e o Diabo falam com a gente através das pessoas. Estranhou o travesseiro e o barulho do ventilador. Alguma coisa fazia sentido demais. Deus falou através do garoto de olhos azuis? Não pensou em voltar lá e pedir uma explicação mais detalhada. Só queria guardar o som das palavras e poder trazê-las sempre que precisasse. Aos poucos, a sensação de estranhamento foi passando e a certeza de algo dito três vezes foi tomando conta do seu espírito. Seu corpo ficou leve e sua cabeça encharcada de amor. Agora, o travesseiro se encaixava perfeitamente. Sentia que pertencia ao mundo e que o mundo falava com ele. Estava cansado de esconder suas feridas com um sorriso de plástico. As palavras voltavam e tudo fazia sentido demais. O travesseiro se ajeitava macio. “Achamos que os pensamentos só acontecem na nossa cabeça. Mas, na verdade, pensamentos são impulsos de energia e informação. Toda a natureza fala a mesma língua. Somos corpos pensantes num mundo pensante”. Desligou o ventilador e dormiu suave. Amanheceu e o sol bateu na janela sem cortinas confirmando sua pequena tese. Herói, louco, maldito, fútil, belo, sagrado... Perfeito. Era. Sim.
Ariel Pádua
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Playmobil

Fume vários cigarros - bem rápido -, é praticamente igual... Funcionam pra mim! Cigarros e Coca Light. Nenhum coelho passou apressado por isso não seguiu ninguém naquela noite branca. Os cigarros, esses sim, funcionaram. Coca Light não quis tentar. Pensou que a Coca Light era só a parte piada. Como azeitonas murchas tiradas da pizza: piadas são dispensáveis. O riso é quase mecânico, uma mistura de preconceito com medo. Não é legal. O sorriso brotado é mais nobre. Brotando como pipocas, os coelhos... Brancos, fofinhos, apressados, medrosos, ariscos, férteis, sexuais - quando escrevo, escolho as palavras pelo som, nunca pelo sentido, não é um truque para ocultar verdades, é que não sou lógico, olho pro relógio, sinto medo, sinto frio, sinto muito -, sinto, não sou e não sei, nada. E o preconceito. Este nunca tem pressa porque tem raízes profundas. A noite branca mostra o amanhã amanhecendo tão claro. Já vai acordando e fazendo café bem preto no piloto automático. Já vai escolhendo a cueca vermelha. Já vai decidindo as eleições presidenciais e o Oscar de melhor maquiagem. Sua cara é de pau e de poucos amigos. Frio como um Playmobil nazista, dá seu último trago, antes de. Nascer de novo?
Ariel
Ariel
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Gangorra
Paul KleeO Senhor Tédio vem às vezes dizer que você não é nada e que não faz diferença. Não que ele esteja completamente errado. Somos poeira no vento. Mas a vida contraria a razão. “A única conclusão é morrer.” – disse Pessoa. Se a vida é razão e toda equação leva à neutralidade, então Pessoa está certo e Senhor Tédio também. Mas a vida é inventada, sonhada. É ficção real com começo, meio e fim (não necessariamente nesta ordem). E essa história pode ser divertida, ou bela... Já que a vida é tentativa, é erro, é encontro, é desencontro, é amor, é sexo, é riso, é sorriso, é só, é acompanhado, é vela, é cela, é choro, é chuva, é rima, é sina, é ouro, é morango... É sonho. É doce no começo e amarga no fim. Em alguns casos, exatamente o contrário. O Senhor Tédio é muito amigo da Dona Rotina. Eles estão sempre fofocando e cuidando para que tudo nunca mude. Deixa eles pra lá! O Senhor Tédio e a Dona Rotina são realistas demais.
Ariel Pádua
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O Mistério
Daniel AraújoA igreja e a psicanálise levam os sonhos para o campo da razão. Mas não há mais tempo para teorizar resíduos. Sonho é resíduo, é resto, é, portanto, lixo. O universo, numa tradução literal, significa “canção única” (único verso, única canção). Este “universo” é feito de sons e ondas que se cruzam e trocam informações. A tecnologia nada mais é que uma tentativa de recriar a natureza pelas mãos humanas. Antes da roda já havia a Terra, imensa e redonda, girando cheia de mistérios e informações de difícil (talvez impossível) compreensão pela mente humana animal em processo evolutivo. Mas que mal há na dúvida? Aceitar o mistério é um luxo para poucos. Todos buscam freneticamente respostas para todas as externalidades quando todas as possíveis respostas só podem ser encontradas dentro de nós mesmos: no silêncio, na pausa, na respiração e não na razão inventada a cada estação que pode levar ao erro. A verdade, se é única como dizem, só tem um nome: Amor. Simples e sem explicação. “Viver ultrapassa qualquer entendimento.” – já dizia Clarice. O Amor (em todas as suas formas) é real, pois dispensa explicações. Todas as teorizações levam a eternos debates, mas o Amor, este, é indiscutível porque é verdadeiro em cada célula, em cada átomo, em cada ato.
Ariel
Ariel
domingo, 24 de janeiro de 2010
Do Orgulho ao Amor ou da Razão à Fé
O ser humano viciou-se no verbo alterar. O ser humano viciou-se em alterar suas percepções do mundo. É por isso que metade do mundo é viciada em drogas e a outra metade é viciada na religião. É por isso que todos, sem exceção, são viciados em jogar. Jogar é seduzir. Jogar é trapacear. Sorte no jogo, sorte no amor. A realidade, vírgula, parece ao homem (ou a mulher!), real demais pra ser verdade, ou, verdadeira demais pra ser real. Falar é emitir sons com (ou sem) sentido que são imediatamente decodificados por outra pessoa. Pessoa apenas no sentido literal. Que fique claro! Como se pessoas pudessem caber em meia dúzia de frases viciosas, viciantes como no jogo, ou seja, o vício no perde e ganha que traz o caos para o homem (ou a mulher!). Há leis no mundo que não podem ser alteradas. Há regras universais. É por isso que nascemos e, é por isso que morremos. Como pássaros presos em uma gaiola, podemos escolher: receber a luz ou ficar no cantinho, nas sombras. A luz é o livre arbítrio. A única solução para o vazio da razão no sentido de fé no nada. O livre arbítrio é sinônimo de liberdade de pensar. Liberdade de se deixar ser julgado, sempre, é claro, com um sorriso no rosto daqueles quem vem do coração.
Ariel Pádua
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
eu-e-você

cada palavra tinha pra ela um sentido sexualmente execrável como noites mal dormidas e cervejas estragando fora da geladeira sem falar no tédio chuvoso e da preguiça de fazer macarrão ouvindo qualquer coisa que parece música mas não parece novidade só o vento fresco sempre igual e sempre novo na janela de teresa dava pra ver sua lista de contatos no modo invisível covardes escondidos de si mesmos quem sabe a gente pega um cineminha mais tarde a gente vai pra casa a gente eu-e-você a gente dá um rolê ou espera acontecer de uma carta entrar por baixo da porta talvez mais propaganda pentecostal ou um rombo na conta do novo rambo do cinema nacional que é branco e mata bandidos da mesma favela onde mora depois de cheirar um certo pó de arroz percebe uma linha de expressão e um certo ar de sabichão que não sabe nada além do óbvio destino de todas as teresas tesudas ou não
Ariel
Ariel
sábado, 2 de janeiro de 2010
Passou

Seu namoro durou menos que a fama da Lady Gaga e suas frases curtas do Twitter já não tinham mais graça e todos os seus cedês do Oasis não valiam mais nada no Mercado Livre quando a Som Livre já tinha falido foi então que percebeu a eletrostática imagem do seu rosto vencido no espelho mágico dos vampiros falidos do Morumbi daí exibiu um olhar excludente como o sorriso do Serra.
Ariel
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