terça-feira, 19 de outubro de 2010

Esquerda


Sou aquele que decifra teu sorriso. Aquele que quase te ama. Que quase te cura. Quase te abraça. E os sons do teu ser me atravessam como ondas. E continuo sendo. Ciumento. Exilado. De cimento. Atrás do que eu poderia ser se. Ou festejando, me despedindo com festa. Enquanto o lado direito do meu cérebro cria e se importa, do lado esquerdo do meu peito bate um coração intimidado, orgulhoso, cheio de tudo, até de amor. Cheio de uma certeza apontada para o lado de lá.


Ariel Pádua

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

lábios leves

olhos brilhantes
de aço cirúrgico
apertam o amanhã
contra a parede

deparo com as partes
do todo embaralhado
como um sonho
desconexo

faço retratos camuflados
da situação
embaraçosa
chamada vida,

um sol chamado deus
um planeta líquido
chamado terra

devo citar o amor
feito de morangos maduros
bem doces & prontos para
morrer

devo citar nessa hora
a estrela que acreditou
na cartomante
pra ser feliz

ariel

quarta-feira, 7 de julho de 2010

caracteres

dum jeito só meu
prosaico rabisco crenças
té botar no papel
toda vida já foi
dissolvida

num copo num corpo
único e duplo

como perceber objetos
de desejo dizer dizeres
sim não obrigado
passa semana que vem

dum jato só ir
do pensamento à
ação já tão cúmplice
da emoção

seja ela o sereno
suor da cidade será
sempre uma casa
espelhada


ariel

domingo, 4 de julho de 2010

Débito Automático

A burguesia, com todo o seu padrão de comportamento e força criativa, poder de sedução e necessidade de constante inovação – muitas vezes substituída por um simulacro de novidade –, é mais que encanto, é vital para o sistema de trocas monetárias, ou se preferirem, digitais.

Pensamentos letais: ligar a TV ou bater um bolo? Talvez, o bolo primeiro e a TV depois. Dá nos nervos nego, dá nos nervos esse show perfeito mecânico, messiânico, equalizado, padronizado, neutro e cínico. É o show do marketing (político) e sua venda desenfreada de ideais de felicidade.

Mas a grana precisa, sobretudo e sempre, da imaginação, da abstração, da tela em branco, da falta de explicações, do mágico, do religioso, do encantamento. Assim como o luxo precisa do lixo, amigos inseparáveis.

Todos querem se livrar do lixo, mas ninguém quer perder o luxo. Ou, melhor dizendo, ninguém quer perder. Mas todos perdem. Trata-se de uma operação sistemática de subtração. E o resto do resto, é o espetáculo do espetáculo, ou seja, as cinzas.

Ariel Pádua

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Microondas

Cobrava explicações
Coerentes

Daquela noite branca

Nada restou na manga
Nenhum coelho na cartola
Enquanto rostos cansados
Dormiam tranquilos

No coração da tarde

Sonhavam
Voavam
Viviam

Essas pessoas espertas seguras convincentes
Ou simplesmente
À altura
De uma metralhadora

Nuvens de som
Se formavam num céu instável
Contra um azul perfeito
Da cor do amanhã

O inverno era opaco e precipitado
No entanto era terça dia de pagar
A luz
E as horas eram horríveis

Ariel Pádua

“Ou, se preferirem, há emoção quando o mundo dos utensílios desaparece bruscamente e o mundo mágico aparece em seu lugar.”

Jean-Paul Sartre

terça-feira, 8 de junho de 2010

Fome de Beleza


Tênis branco, calça vermelha, jaqueta marrom, cabelos e olhos castanhos, maravilhosamente comuns.

Fedia a cigarro, os joelhos ralados, a risada boba, o ar de reizinho.

“A burguesia transformou todos em pequenos burgueses” - disse, do alto da sua beleza adolescente.

Beleza radiante, quase prepotente, com ares de estudante francês.

Enquanto gelos gigantes derretiam morbidamente em copos de caipirinha...

Irã descrevia seu tédio com todas as metáforas pobres que sabia.

Ele não estava entre os vinte meninos mais inteligentes da Califórnia, mas sua euforia tinha gosto de vida.

Um dia, contou a história de Wanda: “Era uma neguinha manca, daquelas que fediam a perfume duvidoso. Parisiana!, chamava o tal perfume...”.

Do banheiro – com a porta aberta – eu ouvia a história engraçada e maldosa, antes de apertar o botão da descarga.

Pensei, fechando o zíper, que o amor – única palavra sem sinônimo – bota o tédio abaixo de zero e arranca o homem do seu aquário.

E a beleza, essa só vale, se for roubada para ser habitada.

Ariel Pádua

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Coleção


Página 57, percebeu que o livro tinha profundidade, alguma alma, certa originalidade, possíveis dimensões sociológicas, mas era chato, bem chato.

Cada palavra, mal colocada, tinha uma sombra com vida própria. Tudo devidamente coberto por poeira.

A mala era pesada como sua vida. E como um gato, de pé, com fé, lambia as próprias feridas.

Será que vai chover? Até quando Israel usará o passado e o cinema para justificar o presente? A dor branca dói mais?

Enquanto Thor latia carente e pardais caiam duros do céu azul-céu como meteoritos...

Bichas suburbanas, chineses, putas, ciganos e corretores de seguros celebravam o Dia do Trabalho.

Todos procuravam um milagre representado quando o real é fantástico demais para ser verdade.

O álbum de figurinhas da Copa fervia, ao sol, no banco de trás do Fusca laranja.

Latia Thor, carente, para pequenos garotos que sorriam malvadinhos com seus estilingues improvisados.

Sombra de mim, caricatura quase cicatrizada, fechei o álbum incompleto, botei na terceira gaveta.

E dormi sem respostas.

Ariel Pádua