
Tênis branco, calça vermelha, jaqueta marrom, cabelos e olhos castanhos, maravilhosamente comuns.
Fedia a cigarro, os joelhos ralados, a risada boba, o ar de reizinho.
“A burguesia transformou todos em pequenos burgueses” - disse, do alto da sua beleza adolescente.
Beleza radiante, quase prepotente, com ares de estudante francês.
Enquanto gelos gigantes derretiam morbidamente em copos de caipirinha...
Irã descrevia seu tédio com todas as metáforas pobres que sabia.
Ele não estava entre os vinte meninos mais inteligentes da Califórnia, mas sua euforia tinha gosto de vida.
Um dia, contou a história de Wanda: “Era uma neguinha manca, daquelas que fediam a perfume duvidoso. Parisiana!, chamava o tal perfume...”.
Do banheiro – com a porta aberta – eu ouvia a história engraçada e maldosa, antes de apertar o botão da descarga.
Pensei, fechando o zíper, que o amor – única palavra sem sinônimo – bota o tédio abaixo de zero e arranca o homem do seu aquário.
E a beleza, essa só vale, se for roubada para ser habitada.
Ariel Pádua