quinta-feira, 30 de julho de 2009

Barrados no Baile

A Geração MP3 já não tem heróis porque atingiu o nível 6 do Individualismo. Uma idéia por dia, um ídolo por semana, uma ideologia por mês. Ainda restam, é claro, alguns resquícios do Cristianismo e da Pop Art. Mas a tendência... A tendência é tudo virar tendência. Tendências sem finalidades. Sei que faço parte de um seleto grupo de predestinados. Mas que glamour há nisso? Se este grupo não tem nada a dizer e diz por insônia ou narcisismo. Excluídos bem escolhidos como feijões podres que olham para as rugas das paredes mal pintadas das suas casas pobres. Os bobos da corte que dela não fazem parte. Por isso levantam o tapete e espalham toda a sujeira. Do Pó viemos, ao Pó voltaremos, mais tarde, àquele rio da Itália, um dia, quem sabe. Talvez seja tudo uma questão prática. Peeling, yoga, comida natureba, meditação e vida eterna agora. O Amor, a gente protela. A Política, a gente protesta por protestar. Quando sai um Sarney, entra outro com mais sarnas. Sanguessugas. Só resta celebrar a Glória de estar vivo. Rir e chorar e às vezes se dar ao Luxo de não sentir Nada.

Ariel Pádua

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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Queda Livre

O caminho não se altera. A raiva é necessária e passageira. O que poderia ser e não foi. O que foi e não foi. Foi. A lua continuará brilhando como um queijo gigante criando desejos além do próprio homem. O amor, a prisão, a família: só há vida onde há liberdade. A verdade não dói. É mentira. A verdade cura. Basta usar o dom da atenção sem sair do tom. A verdade, claro está, é, tão-só, uma opinião: convincente, confortante e bela. O mundo pode parecer, em certos momentos, um jogo ou uma brincadeira de mau gosto. Prazer e gozo. Mas a vida não deve ser prazer, nem sofrimento. Deve ser intensidade e busca de paz e perfeição que são somente encontradas no próprio peito. E quando os monstros voltarem: expulse-os com uma gargalhada! Em cada sorriso vive um anjo. Em cada risada tem uma criança.

Ariel Pádua


“O passado é o que o homem não deveria ter sido. O presente é o que o homem não deve ser. O futuro é o que os artistas são.”

Oscar Wilde

terça-feira, 21 de julho de 2009

Meditação

Sitiado e situado no vão do esforço de escapar das diárias tentações, tento traduzir em palavras, pensamentos vaidosos, nunca inteiramente entendidos, mas sempre condenados ou elogiados. Um olhar, um sorriso, uma cara de poucos amigos, um nó na garganta: imagens, magicamente assimiladas. As palavras, elas causam embaraço, são arrogantes, previsíveis. Quando saem da boca já não são mais minhas, nem suas, são do mundo e soam banais. Porque elas passam pelo intelecto e quando são interpretadas são rapidamente distorcidas pela “razão”. As imagens, pelo contrário, são engolidas pelo instinto e jogadas no fundo da consciência do “homem”. Por isso, não há como competir com as imagens. Os livros são sagrados porque ninguém lê. O mundo se parece mais com um palco e os palcos mudaram o nosso mundo. A igreja, os palanques, a ópera, o teatro, o cinema, a televisão: palcos da arte do impacto popular que move o planeta. As palavras são em essência pequenos desenhos com sons e significados. Muitos significados. Mas a imagem da bola é a mesma pra todos. Logo, todas as teorias complexas e supostamente bem estruturadas parecem bobagens hipócritas quando contrastadas com os apelos e as selvagerias da vida “real”. Um minuto de silêncio.


Ariel

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dislexia

Escrever é solitário e solidário. Provavelmente alguém já disse isso, o que não me impede de dizer novamente. Solitário para quem escreve. Solidário para quem lê. A arte deve ser bela. Pode ser digestiva ou embaralhada. Mas o resultado deve ser mágico, encantador. O processo, obviamente, sempre parte do tédio em direção às estrelas. É tudo isso junto, misturado, batido e bebido como um suco e depois esquecido ou transfigurado. Vamos à pequena história de Beatriz. Seis semanas que não saia do quarto. Pela janela, Bia via, carros e pessoas, imagens meramente ilustrativas. As pessoas com as roupas da estação. Lá fora, era o eterno bate-estaca. Ações controladas pelo deus-dinheiro que guia esta caneta Bic e transforma tudo em papinha de bebê. O deus-dinheiro que esmaga a arte e fode a Bia todo dia. De maneira, que a moda é mais um modo de modelar a massa. Beatriz despreza o mundo, a moda, a massa, a mentira e toda maldade que não seja sincera como a das crianças. Trair o mal é honestidade. Não sei o que faço com Bia. Talvez ela corte os pulsos. Talvez controle os impulsos e vá viver lá fora com a roupa da estação. É por isso que este texto vai ficar no zero a zero.

Ariel Pádua

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Trama

O pequeno lobo desfila na noite vazia vigiado pela lua. Às vezes o pequeno lobo cai nas próprias armadilhas quando inventa um mundo só dele, perfeito, onde só cabe um personagem. Talvez um fantasma. E, como se sabe, o personagem não é criado pelo sonhador. Todo sonho já foi sonhado e o povo interfere na trama. O público fere a trama e fere o pequeno lobo. Mas o pequeno lobo tem o sol de dia e a lua de noite. A lua é pra sonhar, o sol esquenta o coração. Não é preciso trocar de fantasia. Não é preciso trocar um deus por outro de nome mais exótico. O desapego é necessário. A sonoridade, fundamental. O pequeno lobo fareja. Sente cheiro de sangue, carne, cerveja, cigarro e perfume. Sente cheiro de gente, vulgar e sublime. O pequeno autor de pequenas histórias mal contadas cai em si. E sorri. E o coelho foge, assustado, olhando para sempre no relógio. E o pequeno lobo transforma sua dor em doce de leite. E derrete, derretido e acorda mais vivo.


Ariel Pádua

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"E a autoridade, ao seduzir as pessoas a se conformarem, cria e alimenta uma espécie muito grosseira de barbárie."

Oscar Wilde


sexta-feira, 10 de julho de 2009