terça-feira, 16 de março de 2010

Só no Ensaio

Foto: Vanessa Cornélio


Chorou litros de sangue ao saber do caso de Kátia com o dentista assassino. Não suportou o fato de ser trocado por um tiradentes que tirava a vida das mulheres. E com Kátia não foi diferente. Matou-a depois de três doses de uísque e uma leve desconfiança infundada. Afundou a faca em Kátia, o dentista assassino. Kátia escolheu seu destino quando, em detrimento do amor, escolheu o dentista, escolheu o dinheiro e uma vida sem graça, uma vida sem cor. Mas, mesmo Kátia, tão fútil e tão sem graça, não merecia a dor, o horror. Nem uma história sem sentido. Poderia aprender com a vida, porém, não teve tempo de estrear, ficou só no frio, só no ensaio, caída, de saias, sangue no chão. Ficou no papel, só de fato, um retrato, pra embrulhar peixes.

Ariel Pádua


segunda-feira, 8 de março de 2010

frases fajutas

frases fajutas esfomeadas
refogam feridas em fogo
brando brindo brega

danones vencidos

solto no ar
palavras que não estou
sentindo como se fossem
avisos

pras novas
gerações de lactobacilos
vivos

imponentes feito cotonetes
arrancando a cera quente

doce de leite

ariel

domingo, 7 de março de 2010

O Amor Sorriu

O amor sorriu, algo que não fazia há muito tempo, na verdade, ele nem se lembrava da última vez.

Os dois caminharam juntos, e logo tornaram-se amigos. Naquele mundo de frios, aquele coração batia, como uma pequena resistência.

Bibiana Garrido

www.vagamenteocioso.blogspot.com

sábado, 27 de fevereiro de 2010

futilidades descabidas

futilidades descabidas
é o nome do jogo sem
vencedores

nu de razão
desprovido até mesmo
de uma estratégia
muda

ao menos posso
reafirmar um ponto-de-vista
qualquer agora é meu
patrimônio genético impulso
narcisista

os ponteiros do relógio
vermelho quebrado
indicam três diferentes caminhos e meio
assim sem sal no mínimo é
isso


ariel

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sopa de Letrinhas

Te vejo num grande navio. Com as mãos e a boca e os pés amarrados. Como uma linda flor presa na terra. Como uma grande língua presa na boca. Como o bom português preso às regras gramaticais. Guardando um rebanho de letras rebeldes.

Não há porque buscar palavras empoeiradas no dicionário se o mundo é corriqueiro. É preciso ser compreendido e instantaneamente esquecido para ser lembrado. É preciso morrer e nascer muitas vezes. Pra ter uma história pra contar.

E nadar no mar de letrinhas. E beber a sopa de ilusões até se afogar de vida.

Te vejo com seus vícios de verão, felicidades de canudinho e sonhos de confetes. Deixe as águas baixarem, verá as janelas acesas dos prédios refletidas no teu ser pequeno como um grão de areia. E grande como uma grande rocha.

Todos sabem, no fundo (do mar), que o impossível é apenas o contrário do possível. O não, não existe. O impossível é apenas uma palavra secundária, derivada, do medo. O impossível é possível.

Não imagine uma praia deserta. Não! Tarde demais. O sim novamente venceu.




Ariel

sábado, 20 de fevereiro de 2010

cinco minutos a viuvinha II

quando você chegar
com as malas promocionais
e pacotes de fio dental abertos
prometo não te transformar
numa empregada de cabelos curtos

não te obrigar a arrumar
a cama de manhã e à noite
varrer o chão do quarto
da cozinha do banheiro

prometo te agradar de vez
em quando dizer que você cheira
a uma caixa de revistas manchete
guardadas há muito tempo


ana guadalupe

http://welcomehomeroxy.blogspot.com