CURTOS PRAZERES

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Camila

Despejo mil pedaços de mim em mil razões – laços feito barbas feitas – desconfiadas, e espinhas encravadas, cravo as mãos, os pés; maçã e canela, então juro que vou embora, Camila, embora ainda tenha tanto a viver e mais nada a dizer, Camila.


Ariel

domingo, 8 de novembro de 2009

Figurante

Acordou de um sonho sinistro. Suado, se levantou e foi à geladeira. A velha, branca e descascada geladeira, daquelas com lâmpada dentro, queimada. Acendeu a luz da cozinha. Olhos ofuscados. Atordoado ator, meio acordado, meio vivo. A lata de pêssegos não tinha pêssegos. Bebeu todo o conservante líquido doce veneno, compulsivamente como se fosse licor. Insônia e calor. A gaveta, os comprimidos, boa noite. De manhã, acordou. Som de buzina, carros, cachorros, galos e gente. E o medo do dia pareceu-lhe maior que o medo da noite. A gaveta, os comprimidos, bom dia. Paulo, o personagem pretexto, pensou: "a Arte se levada a sério demais vira Política já que a Cultura Pop é a única coisa mais poderosa que a Religião no imaginário coletivo já que metade do mundo, ou talvez mais, certamente mais, não é cristão, já que todo o mundo assiste TV, vai aos cinemas e aos estádios. Portanto, os ícones pop são tão fortes como modelos acabados de comportamento quanto os modelos políticos e religiosos (há diferença?), mas pega mal dizer isso, pois o Império Romano (o maior que já houve) travestido de Vaticano ainda exerce poder na mídia global." Café preto, um pedaço de pão, um nó na gravata, o nó na garganta, um dó de si mesmo. Lá fora, a vida segue seca. Os carros voam. Os dias passam batidos. Os sonhos morrem. A vida vive. A vizinha lava a rua e fala mal do Prefeito. É logo repreendida pela colega do bairro e da Igreja muito preocupada com o planeta.


Ariel

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Mesa 2


Você já sentiu sede no pé? É uma coisa doida, o seu pé ta limpo, mas você tem que molhar ele, sabe? Eu acho que o Lula é pop pelo mundo porque ele tem essa cara de esquerdista moderado, uma mistura de Che Guevara com Papai Noel. No fundo as pessoas tem sentimento de culpa, culpa de tudo, e precisam de ícones de justiça. É verdade que a Linda Carter foi Miss Universo antes de ser a Mulher Maravilha? Eu sei que ela já gravou um disco de folk ou country, não sei. Acho que era country mesmo, vou confirmar no Google. Folk é mais chique. Agora tudo é folk! Por necessidade, não por opção. Porque o mundo ta quebrado. A indústria fonográfica ta fodida e agora tudo é banquinho, violão e youtube. Eu sinto falta de coisas bem produzidas com orquestras, instrumentos, dançarinos, vozes, musicais, videoclipes, shows... Trabalhar em equipe é muito mais difícil. Eu trabalho porque preciso, sabe... Se eu fosse rico, cara, só viajaria e estudaria. Só. Tudo. O mundo. Sempre. Por mim, pode fechar.

Ariel


“É o real, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos desertos que já não são os do Império, mas o nosso. O deserto do próprio real.”
Jean Baudrillard

“Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.”
João Guimarães Rosa


domingo, 25 de outubro de 2009

Ressaca


À disposição do destino tranquilo e falível como ondas do mar no rádio Rita Lee ou cápsulas de ritalina ou chocolates em embalagens reduzidas é o hype da antiinflação inflamada verdade reafirmada a cada estação por um fio um filme ou verso qualquer tão importante impotente ao final como se fosse um excesso de cautela em cada calcanhar sujo ou um recesso de sucesso expresso o que ninguém precisa ouvir amanhã jogo tudo no mar agitado marágua de Ibirá v’adiando planos d’vulgando protestos incompletos biquínis na praia sem Honduras penas sem estados de sítio no Carnaval da Sapucaí sacana ou da bicharada pelada na Paulista sassaricando confetes em tons pastéis reciclados papéis,

desalento
desatento
destalento
des-
espero de vez
em sempre,


ARIEL

terça-feira, 13 de outubro de 2009

MARINA

Daniel Araújo




Enquanto os olhos da cidade repousam sobre cada cota de sangue do velho travesti jogado na rua molhado molhada como uma Tele Sena perdida jogada jogado no lixo sangue e chuva escorrendo na janela como lágrimas, Marina parecia uma louca um louco delineador desenhando um rosto perfeito feito uma gata no cio sem frio, decotada pelas ruas algemadas como se cada vírgula fosse um poema como se cada gota da gata fosse um acessório dispensável como vírgulas e pontos elegantes disfarçando um texto vazio – as grandes esmeraldas – então tudo continua a não fazer nenhum sentido, no entanto brilham as esmeraldas e os dentes separados no ninho – olhos oásis, noites do norte (juro que vou pra Salvador este ou ano que vem depois de Buenos Aires). Marina, o nome mais lindo, vive delineando situações inverossímeis e a cada talvez (dentro dela) nasce um sim e morre um não. A cada não nascem cem (possíveis) sins. Marina se molha de água do mar. Fecha os olhos e sorri morna e lisa.


ARIEL

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cena Aberta

Mike Riden


Entre tantos antecedentes impertinentes (fatos fúteis), refutados logo de cara com a ferida aberta em cena: sonhos de Ovomaltine, garrafas, Pet Shop Boys na vitrola. Numa das gaiolas, um hamster tenso – penso nas férias na praia. Preciso nadar, correr e lembrar. Correr e lembrar.


Ariel


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Molhado de Mundo

Daniel Araújo


Ainda há lugar pra mim?
Ainda há luar pra esquecer?
Há inda há um olhar sem fim?
Há inda há um vulgar a tremer?

Tecido no tempo.
Vestido de vento.
Molhado de mundo.
Ahhhhhhhhhhhhhh!

Há inda há
Sim.


ARIEL


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